quinta-feira, junho 03, 2010

Controlável formosura

“Seu cabelo continha todos os raios de sol do mundo: brilhava a ponto de ofuscar os olhos de quem o contemplava. Ia até o meio de suas costas em ondas delicadas. Balançava suavemente com o seu andar elegante, e mesmo quando estava parada e pensativa, uma leve brisa a acompanhava e misturava seus fios de ouro.
“Os olhos tinham todas as cores do arco-íris, e até mais algumas. Eram hipnotizadores, grandes e brilhantes. Mil borboletas batiam suas asas dentro dele, num vôo que cintilava. Quanto mais feliz ela se sentia, mais bonito seu olhar ficava: era capaz de aquecer corações já antigos demais.
“Sua boca era belíssima: os lábios carnudos e vermelhos como uma maçã abriam-se sempre num sorriso encantador e faziam explodir emoções quando beijavam os de seu amado.”

-Não, tire essa parte do beijo. – ela tragou seu cigarro.
“Sua boca era belíssima: os lábios carnudos e vermelhos como uma maçã abriam-se sempre num sorriso encantador e escondiam dentes perolados e felizes como os de uma criança.”
-Hmpf. Isso aí. – soltou a fumaça pelo nariz.
“Os pés que tinham andado tanto e descoberto tantos caminhos eram macios, pequeninos. As mãos gostavam de calor humano e proximidade: eram hábeis e acolhedoras; igualmente pequeninas.
“O corpo esbelto, de pele suave e quente, movimentava-se sempre no ritmo que ninguém determinava. Ela sorria e fechava os olhos para aproveitar melhor a música. Sua vivacidade traduzia-se quando ela dançava: de todas as suas habilidades, era com aquela que mais se sentia plena e dona de si.
“Suas emoções eram sempre bem definidas: muito precisas e extremamente envolventes. A força e energia que tinha vinha do amor que nutria pela vida sempre generosa.
“Ela vivia pois o novo a cada dia era sua razão de existência: a felicidade de ter um passado, um presente, e um futuro, um ontem, um hoje, e um amanhã, mal cabia em seu peito quando ela se descobria viva a cada segundo.
“Seu conjunto era especial, incomparável. Ela, sendo ela, era a mulher mais bela deste planeta.
“Até sua respiração era linda: meu Deus, como pude esquecer de dizer isso? Devo ter deixado de falar vários outros detalhes também. Há tanto para falar... Um infinito de perfeições...”

Paula bateu o cigarro no cinzeiro de pedra. À sua frente estava um jovem sentado numa cadeira preta junto a uma mesa onde havia uma negra máquina de escrever. Seu cabelo era ralo a ponto de poder se ver o couro cabeludo rosa. Ele era magricelo e curvado. Esse garoto olhava as teclas gastas e passava os dedos com unhas longas por elas suavemente, como se acariciasse o rosto de uma moça, coisa que nunca havia feito. Seus pensamentos não estavam focados em nada: ele era uma pessoa ausente, não importava a situação.
Ela estava impaciente como em todas as manhãs. Batia insistentemente o salto fino do sapato com estampa de onça no chão, espalhando ecos pela sala. O cigarro que fumava não tinha nicotina alguma, porém ainda lhe dava o mesmo prazer. Alguns achavam que aquela medida saudável do governo não adiantava nada, pois ainda era possível encontrar cigarros antigos e não-mofados à venda, a algumas esquinas dali. Como funcionária do governo, ela seguia a maioria das regras, pelo menos enquanto houvesse alguém que pudesse a flagar.
Um segurança entrou na sala e tirou com delicadeza o papel com letras ainda molhadas da máquina. Ela conhecia-o bem, mas sempre o olhava cuidadosamente de cima a baixo. Desta vez ele portava um fuzil e tinha munições presas às panturrilhas, onde normalmente se colocaria uma faca de caça. Ele era sereno, bonzinho até demais, apesar de nunca se importar demais com os dois. Era um segurança “Nota 50”, como dizia o novo slogan do presidente.
Paula era poetisa. Apesar de seu jeito ameaçador, briguento, lidava com palavras com uma suavidade incompreensível; as tratava como personagens reais. E, por azar, acostumou-se a tratar personagens reais como palavras (principalmente as mais banais e ordinárias). Ao mesmo tempo era importante e desnecessária ao governo. Porém como já estava alto o número de desocupados pelas ruas e bares, a mantiveram ali.
Essa era mais uma descrição de padrão de beleza ultrapassado que ela fazia, para que o governo não o repetisse. Tinha sido comum em 2025, 2030, por aí, quando o infinito culto ao brilho e a natureza havia quase acabado com o mundo. A moda agora ainda não tinha sido definida, mas seria algo rebelde, vermelho, belo, forte e rasgado. Provavelmente algumas drogas seriam liberadas e o governo libertaria as bandas de rock (estilo quase totalmente esquecido) da prisão.
Paula em particular preferia não pensar em nada. Levava o que devia lhe importar como se nada tivesse a tocado. Ao ritmo da vida, um brinde, ela dizia quando chegava ao seu apartamento e o encontrava lotado de amigos próximos que traziam cerveja escondida em frascos de sabão em pó.

2 comentários:

  1. 1 comentário, seja feliz.

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  2. Antes que você me mate. Achei o texto muito bem pensado, gostei muito, adorei. Parabéns, "besty". Mesmo.

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