sexta-feira, maio 28, 2010

Ocupação? Desconhecida

Havia três opções: dormir, ler, e escrever.
A primeira estava afora de cogitação, pois certamente eu tardaria muito a tal ainda que no escuro e no silêncio, devido a estranhos pensamentos em que pessoas queriam estar, quando na verdade eu as mantinha tão longe quanto possível.
Ler eu leria caso escrevesse algo. E o máximo que eu escreveria enquanto estivesse lendo seria o meu nome na primeira página em branco do livro.
Contudo, escrever agora é uma pressão.
No início, explodem dentro de mim incontroláveis e ingênuos fogos de artifício que eu apago forçada pelo piegas sentimento de humildade; sinceramente, fico sem saber qual parte é mais tola.
Quando começo a me organizar, já um pouco insegura de todo o sucesso inicial, todos os estouros fogem logo, levando consigo as idéias possíveis e a calma diante da falta de criatividade, grave problema. Enquanto procuro nos lugares óbvios algo que substitua a euforia, instala-se uma crise em minha mente, que mistura a falta de lembranças recentes e outras perguntas complicadas, por exemplo: “como?”.
Vem a tristeza. Que quando vem forte, mostra que o que dói é sentir falta dela. Sua cara limpa, onde se pode olhar sem se preocupar com a própria pessoa e sem sentir mais nada além da pura tristeza, nunca muda. Mudam os olhos embaçados pelas lágrimas de quem a vê.
Depois da mágoa tão avassaladora, não sobra nada dentro de mim, apenas algumas artérias mais importantes e outros fajutos componentes do meu corpo. Ocorre uma explosão parada. Esvazio-me completamente, numa tentativa de salvar-me de tanto choro e agonia; não percebo, porém, que assim comete-se um suicídio calado, pois fica-se sem nada para ter, lembrar, amar, odiar ou dizer. Transforma-se a minha massa então viva até demais num ser invisível, que um mero suspiro faz voar longe, sem que haja resistência por minha parte, pois não há pelo que lutar.
Então, enfim algo me acerta, vai de encontro ao meu íntimo, tão profundo e intenso que reacende o que eu fora antes. Fico sem dúvida muito melhor, certa de que os sentimentos pelos quais passei trarão-me algum presente, como experiência.
Voltam sem demorar a ingenuidade, os fogos de artifício, e todo o percurso.
Desgraçado círculo vicioso da juventude... Embaralha-nos e distribui-nos pela mesa rindo, enquanto nós nada podemos fazer.

segunda-feira, maio 24, 2010

Derradeiros lenços de bolinha

“Tanta tristeza e tanta pena de mim e dos que obrigatoriamente me cercam que me imobilizo para apreciar a longínqua e suave beleza do que se passa ao redor, sugando com um último suspiro o que poderia me salvar; no entanto, me deixa ainda mais sozinha, isolada na minha estrela, estrela que na verdade eu sempre me considero quando assim estou. Até logo.”

Este bilhete, escrito rapidamente numa letra cheia de curvas quase medievais, ela deixou sobre a cômoda, propositalmente; que alguém um dia o encontrasse e o interpretasse melhor do que haviam feito.

Acostumara-se a pegar emprestado longos vestidos de sua irmã quando saía para dançar, e às vezes a cauda prendia num pé ou outro, mas agora permanecia amordaçada pelas próprias emoções a todo segundo, de saia curta e blusa pouco comportada, do jeito que enfim queria. Seus lábios secos não formaram um sorriso, apertaram-se para que continuassem sufocados lá dentro seus impulsos para desistir ou talvez para pensar melhor com a ajuda de dois ou três copos. Passou por eles uma última leve camada de batom, analisou-se no espelho e contou os passos até o corredor pela última vez. Pisou com cuidado nos tapetes da sala, como havia sido acostumada, para que não deixasse marcas nos caríssimos persas importados.

A fechadura do portão fez seu cleck despedaçado, melodia que havia embalado toda a sua vida. Ela ajustou mais o lenço brancos de bolinhas pretas no pescoço enquanto andava, tão apertado quanto pudesse. Suas vistas se limitavam ao chão e aos pés dos passantes; ainda que esta fosse a última vez, sobrava o embaraço de encarar desconhecidos olho no olho.

A inquietação, agora fragmentada como o cristal dos vasos que quebrara em seu quarto, ficava nas sombras dos becos pelos quais ela passava. Pegou um ônibus que levava ao outro lado da cidade e que como sempre rangia muito; ela já sentia-se mais leve, ainda com o espírito um pouco desencontrado, ansioso para encontrar a metade que havia estado longe.

Minutos longos passaram e poucos belos e antigos bairros como o antigo dela passaram. Enfim saltou do ônibus, desajeitada e próxima ao destino dado como certo. Caminhava tranquilamente ainda que tremelicasse por dentro, com o coração literalmente do tamanho da cabeça de um alfinete.

A grama brilhava ao anoitecer. Cores fortes brigavam no céu inalcançável enquanto o sol majestoso descia no horizonte e uma manta escura salpicada de estrelas era estendida. Os olhos dela faiscavam e escorriam por seu rosto lentamente.

Tão vazia por dentro que foi atingida em todo o seu ser por um frio tímido. Encontrava-se numa velha estação de ônibus, já parcialmente desativada. Não havia ninguém lá. Sentou-se nos degraus sujos sem se importar com suas roupas e esperou seu passe para a glamurosa liberdade, sua tática infalível e cheia de mentiras, seu sossego contado nos dedos, chegar.

E, numa moto, ele veio, minutos depois.

Com seu papo leve, regado ao ligeiro cheiro de álcool, ele a envolveu em um beijo só e em alguns suspiros, ajustou o capacete em sua cabeça com curtos cabelos pretíssimos e deu a partida. Ela agarrou sua cintura e sentiu-se novamente em casa, sendo uma só, sendo só para ele. Deixou pra trás o que havia seguido e sido, por tanto tempo, insuficiente.

sábado, maio 15, 2010

Gotas que mancham para sempre

“Eu não precisaria cursar Medicina e me especializar em cirurgia para entender como era fácil cortar a pele humana, viva, sadia e fresca. Mais simples do que meter a agulha no tecido, mais conveniente do que garfar a azeitona e saboreá-la.”
A faxineira limpava o chão do corredor escolar. Nas salas ao lado, gizes riscavam lousas, conhecimentos que duravam até o apagador fazer-se presente. Chegando ao banheiro, encheu o balde de desinfetante velho, tentou torcer um pano cheio de furos, ajeitou o coque de cabelo que se desmanchava. Abriu a porta que rangeu. As luzes estavam apagadas, os reservados fechados e com a claridade de um dia nublado que entrava pela pequena janela, o máximo que ela notou foi a presença de uma aluna um pouco encostada na parede, quase deitada. O ambiente era silencioso, uma mistura de sono e bebedeira passada que era comum aos estudantes. Não havia fumaça pelo ar, nenhuma bituca no ralo, era cedo ainda. Acendeu os interruptores e com luz, a mulher viu o vermelho chocante que espalhava-se pelo ladrilho.
Houve um grito mal controlado e a mulher fugia pelo corredor horrorizada, deixando caído o esfregão e o balde para trás.
O estilete agora enterrado entre as flores caipiras do jardim encerrou todo o medo sentido e todos os risos ouvidos. Um epitáfio bonito talvez fosse escrito; nada que lembrasse a maldade cometida ou as pragas prometidas, os dias e as noites de sofrimento que a agora vítima proporcionou.
A boca deste quieto corpo que jazia entreabria-se no aparelho fixo. Braços estendidos, o visor do relógio quebrado. A saia do uniforme tinha marcas de puxão e a camisa amassara-se pela força de um chacoalhão. Um cadarço mal amarrado, um salto mais gasto que o outro, entretanto nada disso importava. Em contato com o ladrilho frio e maculado até as pernas das meias 7/8 se manchavam. Olhos fechados agora prestavam contas com o outro mundo. Ainda que nem tenha aproveitado este!...
Enquanto isso a explicação do professor continuava em sua classe, seus cadernos ainda abertos sobre a mesa e a mochila pendurada na cadeira. Uma caneta vermelha e destampada rolou com o vento até cair com a ponta no chão.
Um sorriso macabro fez tremer os lábios do colega que sentava no fundo da classe. Ele queria beber água, mas já saíra dessa mesma aula há pouco.