sábado, abril 17, 2010

Bonequinha

E ele possuiu-me; o ato dessa vez o cansara, o extenuara, ao mesmo tempo em que pedia por mais, ansiava pelo fim. Meu rosto, imortalizado no susto, para sempre de boca aberta e receptiva, permanecia quieto. Meus cabelos, definitivamente amarelos, nem saíram do lugar.
Enfim, ele acabara.
Deitou ao meu lado, acendeu um fumo. Não me ofereceu: fumar com certeza queimaria meus lábios, destruiria o que eu era por dentro, ainda que pouco, só ar. Poluiria o que sobrara de intocado, minha alma, aonde ele não conseguia chegar.
Ele, embriagadíssimo, tinha me jurado paixão eterna há mais ou menos meia hora, mas já me desinflava. Cansado da minha pele emborrachada, do prazer solitário. Eu lhe trazia amor e fidelidade, ainda que precários, mas ele me julgava oca.
Resmungava baixinho, eu percebi. Essas idas e vindas de dedicação minha e desprezo dele tinham se tornado mais freqüentes agora que ele não tinha mais namorada. De vez em quando eu me conformava em ser realmente só isso, em outros tempos lágrimas que ele considerava falsas escorriam de saudade quando o imaginava com outra.
No fundo, a solidão em que eu costumava viver se satisfazia sempre quando havia a oportunidade, fosse com o que fosse. Conheci-o numa festa, estava largada num canto e ele chegou. Bastaram alguns drinks, um olhar cheio de charme, nenhuma conversa e eu aterrissava em sua cama. O que em mim era diferente, me fez presente tantas vezes? Ele nunca me contou.
Apagou o cigarro e virou pro outro lado; nem beijo de boa noite eu recebi. Ainda que eu recebesse sempre algum carinho no começo, imediatamente ele quis que eu dormisse, sumisse, ali não acordasse. Eu teclei um pouco no celular, me ajudaria se isso espantasse a falta de sono. Mas o silêncio do mundo, que dormia de conchinha com quem amava, esmagou-me de um jeito... Se aquilo parecia uma meiga fantasia para tantas outras garotas, tinha se tornado um pesadelo que me acorrentava ao nada, eu andava pelo vazio de um precipício a cada beijo mentiroso. E já durara noites demais.
Encará-lo, tão lindo, dormindo, e dizer adeus?
Soprar desculpas dentro de mim e não senti-las, bombear-me com máquinas de emoção que em qualquer uma serviam, tratar-me mais uma vez como bonequinha: eu não toleraria mais nada disso vindo de ninguém.
Tremi e enfiei os saltos de qualquer jeito, não olhei no espelho para não ter vontade de retocar a maquiagem e demorar ainda mais. Peguei sua carteira e deixei cair com cuidado na privada: se a água não danificasse nenhum cartão de crédito nem o couro de crocodilo, ele não a pegaria por nojo. E aí sim ele se recordaria de mim, mesmo tendo esquecido meu nome mais de uma vez, no fundo só lembrando quando se esforçava muito e não estava de porre.
Eu havia sido só mais uma de suas bonecas, encantadas por... por ‘o que’?, hoje me pergunto.

Um comentário:

  1. Gostei do texto,a reflexão da personagem é muito interessante, mas confesso que até metade do texto realmente achei que se tratava de uma boneca inflável(LOL)!
    Se essa era a intenção mesmo, parabéns ( se não, perdoe minha burrice, sono afeta)

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